7 de novembro de 2009

O psicólogo no aconselhamento genético

Falando sobre genética e psicologia entrevista com Salmo Raskin

Por Mariane C. de Mesquita



Pergunta: O que é e no que consiste o Aconselhamento Genético?

Resposta: Aconselhamento Genético (AG) é um processo de comunicação sobre problemas humanos associados com a ocorrência ou risco de recorrência de uma doença hereditária e/ou genética na família, pelo qual os pacientes e/ou parentes que possuam ou estão em risco de possuir uma doença hereditária são informados sobre as características da condição, a probabilidade ou risco de desenvolvê-la ou transmiti-la e as opções pelas quais pode ser prevenida ou melhorada. Devido a sua complexidade e importância médica, deve ser sempre realizado pelo especialista em Genética Clínica. O Aconselhamento Genético consiste em uma avaliação de um indivíduo ou da família para casos como: confirmar, diagnosticar ou manejar uma condição genética; identificar a melhor conduta terapêutica; calcular e comunicar os riscos genéticos; prover ou organizar apoio psicológico.

Pergunta: Qual o papel do psicólogo neste contexto e como você vê a relação entre a Medicina e a Psicologia?

Resposta: O papel do psicólogo no Aconselhamento Genético é muito importante e no meu entender deveria ser ainda mais. Todos os temas que eu convivo dentro na genética causam impactos psicológicos, seja na pessoa que vem procurar o Aconselhamento, nos familiares, ou no parceiro. Então, o papel do psicólogo seria usar suas técnicas para transmitir essas informações, nesse processo de comunicação que é o AG, da maneira mais adequada possível, sentir por parte dos envolvidos a reação provocada por essas informações e tentar elaborar uma estratégia para suavizar esse tipo de informação, que geralmente é muito pesada para as pessoas. Sobre a relação das duas profissões, aqui no Brasil ainda vejo que é uma relação que precisa melhorar muito. Eu acho que houve algumas melhoras nos últimos anos, já que nas décadas passadas tínhamos certas barreiras entre essas duas profissões: médicos não acreditando muito nos psicólogos; psicólogos achando que os médicos são muito prepotentes. Isso ainda existe, mas está diminuindo bastante. E o médico já entendeu que na formação dele, ele não foi habilitado, tanto quanto o psicólogo, para tratar de todos esses assuntos, por exemplo, aqueles os quais nós estamos falando. O psicólogo também está compreendendo que na formação tem certas coisas que são específicas do médico. Então nós estamos vivendo em uma época de transição, onde vamos encontrar qual é o limite de cada uma das profissões.
Logo, nós poderemos interagir mais e vejo que isto está próximo de acontecer, e os mais beneficiados serão os pacientes.

Pergunta: O que é mais importante em termos de influências para o ser humano: a natureza ou o meio-ambiente?

Resposta: Essa é uma pergunta clássica que há muito tempo tenta-se responder. Hoje em dia, há uma evolução muito grande, justamente por causa do Projeto Genoma Humano, e a resposta para essa pergunta é que ambos são importantes, ambos interagem ao mesmo tempo no indivíduo.
Não é verdade que uma pessoa que nasce com determinado material genético, morre com esse material genético. Mas hoje, sabemos que muitos genes que uma pessoa tem se expressam, ou seja, produzem proteínas, e outros não se expressam. Por que alguns genes se expressam ou não se expressam, existe uma influência do meio ambiente para selecionar quais genes se expressam e quais não. Por exemplo, temos gêmeos em que um terá esquizofrenia e outro não. Mas se eles têm o mesmo material genético, por que um terá a doença e outro não? Provavelmente é porque certas situações do meio-ambiente em que um passou acabam ativando, ou desativando, determinados genes que no outro gêmeo estão ativados ou desativados, de modo que apesar de termos o material genético igual, desde o primeiro momento da vida até a morte, as proteínas que são produzidas por esses genes se modificam. E a gente acredita então que, durante a própria vida de uma pessoa, essa expressão das proteínas possa mudar e possa propiciar que alguns tenham determinadas doenças psicológicas e outros não.
É uma teoria nova e interessante, que precisa ser comprovada ainda, mas que acaba com a polêmica de séculos de o que é mais importante: natureza ou ambiente, e coloca as duas coisas interagindo juntas, com a mesma importância.

Pergunta: Quais as possibilidades de formação para um psicólogo que queira atuar na área da genética e o que existe para consulta on-line sobre o assunto?

Resposta: Eu acho que é um campo enorme e maravilhoso para o psicólogo aqui no Brasil.
Podemos contar nos dedos das mãos quais são os psicólogos que se especializaram em genética no Brasil. E com um campo enorme, como esse que falei, os psicólogos têm a oportunidade de fazer uma especialização, um mestrado, um doutorado em genética, e juntar tudo aquilo que já aprenderam no seu curso de psicologia com o que falta aprender ainda com uma pós-graduação em genética. Quando tivermos esse perfil de profissional no mercado brasileiro: psicólogo com forte formação em genética, essa pessoa irá destacar-se a nível nacional com uma enorme facilidade.
Então, eu acho que o psicólogo tem que ficar alerta para esse campo, ainda mais sabendo que outras áreas da psicologia estão bastante congestionadas e essa é uma área praticamente virgem.
E o desafio é diferente, é criar o mercado de trabalho, o que considero mais interessante do que ter que concorrer com centenas de outros psicólogos, tão qualificados quanto. Existe uma interação cada vez maior ao nível mundial, inclusive nos países desenvolvidos já existem revistas científicas específicas para publicações que envolvam psicologia e genética, como, por exemplo, a Behaviour Genetics, que pode ser consultada no site . Também existem sites internacionais dedicados, como, por exemplo, e muitas associações internacionais,como e .


FONTE:Revista Psicologia Argumento, Curitiba, v. 24, n. 44 p. 11-13, jan./ mar. 2006.Disponível em http://www2.pucpr.br/reol/index.php/PA?dd1=129&dd99=view